{"id":6208,"date":"2021-12-15T16:55:49","date_gmt":"2021-12-15T15:55:49","guid":{"rendered":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/?page_id=6208"},"modified":"2021-12-15T19:06:41","modified_gmt":"2021-12-15T18:06:41","slug":"livro-1","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/pt\/estatutos-pt\/livro-1\/","title":{"rendered":"Livro 1"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Livro 1: Os monges do claustro<\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"c3\">Cap\u00edtulo 3<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Os monges do claustro<a href=\"\/moines\/pt\/estatutos-pt#c2\">\u00ab<\/a><a href=\"#c4\">\u00bb<\/a><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>Os que foram Pais de nossa Religi\u00e3o seguiam a luz do oriente, a daqueles antigos monges que, quente ainda em seus cora\u00e7\u00f5es a recorda\u00e7\u00e3o do Sangue rec\u00e9m derramado pelo Senhor, encheram os desertos para dedicar-se \u00e0 solid\u00e3o e a pobreza de esp\u00edrito. Portanto, os monges do claustro, que seguem este mesmo caminho, conv\u00e9m que vivam como eles em ermos suficientemente afastados de toda moradia humana, e em celas livres de todo ru\u00eddo, tanto do mundo como da mesma Casa; sobretudo, que permane\u00e7am alheios aos rumores do s\u00e9culo.<\/li><li>Quem persevera firme na cela e por ela \u00e9 formado, tende a que todo o conjunto de sua vida se unifique e converta numa constante ora\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o poder\u00e1 entrar neste repouso sem ter-se exercitado no esfor\u00e7o de duro combate, j\u00e1 pelas austeridades nas que se mant\u00e9m por familiaridade com a cruz, j\u00e1 pelas visitas do Senhor mediante as quais o prova como ouro no crisol. Assim, purificado pela paci\u00eancia, consolado e robustecido pela ass\u00eddua medita\u00e7\u00e3o das Escrituras, e introduzido no profundo de seu cora\u00e7\u00e3o pela gra\u00e7a do Esp\u00edrito, poder\u00e1 j\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 servir a Deus, sen\u00e3o tamb\u00e9m unir-se a Ele.<\/li><li>Conv\u00e9m tamb\u00e9m ocupar-se em algum trabalho manual, n\u00e3o tanto por simples distra\u00e7\u00e3o do \u00e2nimo, quanto para submeter o corpo \u00e0 lei comum dos homens e conservar e fomentar o gosto pelos exerc\u00edcios espirituais. Por isso se lhe concedem ao monge em sua cela os utens\u00edlios necess\u00e1rios, a fim de evitar que se veja for\u00e7ado a sair dela; porque isto n\u00e3o lhe est\u00e1 nunca permitido, a n\u00e3o ser para as reuni\u00f5es na igreja ou no claustro, e em outras ocasi\u00f5es previstas pela regra. Agora bem, quanto mais austera \u00e9 a senda que abra\u00e7amos, tanto mais estritamente nos obriga a pobreza em todas as coisas de nosso uso. Porque \u00e9 necess\u00e1rio que sigamos o exemplo de Cristo pobre, se queremos participar de suas riquezas.<\/li><li>Unidos em comunidade pelo amor ao Senhor, a ora\u00e7\u00e3o e o zelo pela solid\u00e3o mostrem-se os monges do claustro como verdadeiros disc\u00edpulos de Cristo, n\u00e3o tanto de palavra quanto de obra; amem-se mutuamente, tendo os mesmos sentimentos, suportando-se e perdoando-se se algum tem queixa contra outro, a fim de que com uma mesma voz honrem a Deus.<\/li><li>Os padres tenham igualmente consci\u00eancia dos \u00edntimos la\u00e7os que, em Cristo, os unem com aos monges leigos; reconhe\u00e7am que dependem deles para poder oferecer ao Senhor uma ora\u00e7\u00e3o pura na quietude e a solid\u00e3o da cela. Lembrem-se de que o sacerd\u00f3cio que receberam \u00e9 um servi\u00e7o \u00e0 Igreja, sobre tudo nos membros mais pr\u00f3ximos, isto \u00e9, os irm\u00e3os da mesma Casa. Padres e irm\u00e3os, antecipando-se em aten\u00e7\u00f5es m\u00fatuas, vivam na caridade, que \u00e9 o v\u00ednculo de perfei\u00e7\u00e3o, bem como fundamento e cume de toda vida consagrada a Deus.<\/li><li>\u00c9 pr\u00f3prio do Prior mostrar em si mesmo a todos seus filhos, monges do claustro e leigos, um signo vivo do amor do Pai celestial, e reuni-los em Cristo de tal maneira que formem uma fam\u00edlia, e cada uma de nossas Casas seja realmente, segundo a express\u00e3o de Guigo, uma&nbsp;<em>igreja cartusiana<\/em>.<\/li><li>Esta tem a sua raiz e fundamento na celebra\u00e7\u00e3o do Sacrif\u00edcio Eucar\u00edstico, que \u00e9 sinal eficaz de unidade. \u00c9 tamb\u00e9m o centro e cume da nossa vida, \u00e9 vi\u00e1tico do nosso \u00caxodo espiritual que, no deserto, nos reconduz ao Pai atrav\u00e9s de Cristo. Al\u00e9m disso, em todas as celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas Cristo ora por n\u00f3s, como nosso Sacerdote, e em n\u00f3s, como nossa Cabe\u00e7a, de tal modo que reconhecemos n\u2019Ele as nossas vozes, e em n\u00f3s a sua.<\/li><li>Na vig\u00edlia noturna, nosso Of\u00edcio se prolonga bastante, segundo antigo costume, ainda que guardando sempre uma discreta modera\u00e7\u00e3o. Assim se alimenta a devo\u00e7\u00e3o interna com a salmodia e se pode dar o tempo restante \u00e0 ora\u00e7\u00e3o calada do cora\u00e7\u00e3o sem fastio nem cansa\u00e7o.<br>Segundo um antigo costume nosso, todo o monge do claustro, por uma prova insigne da bondade de Deus, \u00e9 destinado para o sagrado minist\u00e9rio do altar. Nele se manifesta assim a harmonia que existe entre a consagra\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica e a sacerdotal, como disse Paulo VI; a exemplo de Cristo, faz-se ao mesmo tempo sacerdote e v\u00edtima de agrad\u00e1vel odor para Deus; e pela participa\u00e7\u00e3o no sacrif\u00edcio do Senhor, comunga das riquezas insond\u00e1veis de seu Cora\u00e7\u00e3o.<\/li><li>Como nosso Instituto est\u00e1 ordenado inteiramente \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, temos de guardar com toda fidelidade nossa separa\u00e7\u00e3o do mundo. Estamos, por tanto, isentos de todo minist\u00e9rio pastoral, por muito que urja a necessidade do apostolado ativo, a fim de cumprir nossa pr\u00f3pria miss\u00e3o dentro do Corpo M\u00edstico.<br>Mantenha Marta seu minist\u00e9rio, laud\u00e1vel certamente, ainda que n\u00e3o isento de inquietude e turva\u00e7\u00e3o; mas permita a sua irm\u00e3 que, sentada junto aos p\u00e9s do Senhor, dedique-se a contemplar que Ele \u00e9 Deus, a purificar seu esp\u00edrito, a adentrar-se na ora\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, a escutar o que o Senhor lhe diga em seu interior; e assim possa agradar e ver um pouquinho, como num espelho e confusamente, como o Senhor \u00e9 bom, enquanto roga por sua irm\u00e3 e por todos os que se afanam como ela. Maria tem a seu favor n\u00e3o s\u00f3 ao mais imparcial dos ju\u00edzes, sen\u00e3o tamb\u00e9m ao mais fiel dos advogados, ao mesmo Senhor, que n\u00e3o se limita a defender sua voca\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o que faz seu elogio, dizendo:&nbsp;<em>Maria escolheu a melhor parte, que n\u00e3o lhe ser\u00e1 tirada<\/em>. Desta maneira a escusou de misturar-se nos cuidados e desassossegos de Marta, por piedosos que fossem.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"c4\">Cap\u00edtulo 4<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>A guarda da cela e do sil\u00eancio<a href=\"#c3\">\u00ab<\/a><a href=\"#c5\">\u00bb<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A nossa principal aplica\u00e7\u00e3o e prop\u00f3sito consistem em nos dedicar ao sil\u00eancio e \u00e0 solid\u00e3o da cela. Esta \u00e9 a terra santa e o lugar onde o Senhor e o seu servo conversam frequentemente como dois amigos. \u00c9 nela que muitas vezes a alma fiel se une ao Verbo de Deus, a esposa convive com o Esposo, as coisas da terra se ligam \u00e0s do C\u00e9u, as humanas \u00e0s divinas. Mas \u00e9 muito o trajeto a percorrer, por caminhos \u00e1ridos e secos, antes de chegar \u00e0 fonte das \u00e1guas e \u00e0 terra de promiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso conv\u00e9m que o que vive retirado em sua cela vele diligente e sol\u00edcito para n\u00e3o se tentar nem aceitar nenhuma sa\u00edda dela, fora das geralmente estabelecidas; mais bem considere a cela t\u00e3o necess\u00e1ria para sua sa\u00fade e vida, como a \u00e1gua para os peixes e o aprisco para as ovelhas. Se se acostuma a sair dela com freq\u00fc\u00eancia e por leves causas, cedo se lhe far\u00e1 odiosa; pois, como diz S\u00e3o Agust\u00edn:&nbsp;<em>Para os amigos deste mundo n\u00e3o h\u00e1 nada mais trabalhoso que n\u00e3o trabalhar<\/em>. Pelo contr\u00e1rio, quanto mais tempo guarde a cela, tanto mais a gosto viver\u00e1 nela, se sabe ocupar-se de uma maneira ordenada e proveitosa na leitura, escritura, salmodia, ora\u00e7\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o e trabalho. Enquanto, v\u00e1 acostumando-se \u00e0 tranquila escuta do cora\u00e7\u00e3o, que deixe entrar a Deus por todas suas portas e sendas. Assim, com a ajuda divina, evitar\u00e1 os perigos que frequentemente espreitam ao solit\u00e1rio: seguir na cela o caminho mais f\u00e1cil e merecer ser contado entre os mornos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os frutos do sil\u00eancio os conhece quem o experimentou. Ainda que ao princ\u00edpio nos resulte no duro calar, gradualmente, se somos fi\u00e9is, nosso mesmo sil\u00eancio ir\u00e1 criando em n\u00f3s uma atra\u00e7\u00e3o para um sil\u00eancio cada vez maior. Para consegui-lo, est\u00e1 estabelecido que n\u00e3o falemos uns com outros sem permiss\u00e3o do Presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro ato de caridade para com nossos irm\u00e3os \u00e9 respeitar sua solid\u00e3o. Se se nos permite falar de algum assunto, seja nossa conversa t\u00e3o breve quanto seja poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Os que n\u00e3o s\u00e3o de nossa Ordem nem aspiram a entrar nela, n\u00e3o se hospedem em nossas celas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os monges do claustro dedicam todos os anos oito dias a uma guarda maior da quietude da cela e do recolhimento. O que se acostumou fazer normalmente por motivo do anivers\u00e1rio da Profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Deus nos trouxe \u00e0 solid\u00e3o para falar-nos ao cora\u00e7\u00e3o. Seja, pois, nosso cora\u00e7\u00e3o como um altar vivo, do que suba continuamente ante o Senhor uma ora\u00e7\u00e3o pura, pela qual devem ser impregnados todos nossos atos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"c5\">Cap\u00edtulo 5<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>O trabalho na cela<a href=\"#c4\">\u00ab<\/a><a href=\"#c6\">\u00bb<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O monge do claustro, sujeito \u00e0 lei divina do trabalho em sua pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, foge da ociosidade que, segundo os antigos, \u00e9 inimiga da alma. Por isso, abra\u00e7a com humildade e prontid\u00e3o todos os trabalhos que necessariamente traz consigo uma vida pobre e solit\u00e1ria, a condi\u00e7\u00e3o, no entanto, de que tudo se ordene ao exerc\u00edcio da divina contempla\u00e7\u00e3o, \u00e0 que est\u00e1 totalmente entregado. Al\u00e9m dos diversos trabalhos manuais, faz parte de sua tarefa di\u00e1ria o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es de seu estado, principalmente as que se referem ao culto divino e ao estudo das ci\u00eancias sagradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, para n\u00e3o perder inutilmente na cela o tempo da vida religiosa, o monge do claustro deve dedicar-se com interesse e discri\u00e7\u00e3o a estudos apropriados, n\u00e3o pela vaidade de saber ou de editar livros, sen\u00e3o porque uma leitura sabiamente ordenada facilita \u00e0 alma uma instru\u00e7\u00e3o mais s\u00f3lida e p\u00f5e a base para a contempla\u00e7\u00e3o das coisas celestiais. Erram, pois, os que julgam que, descuidando ao princ\u00edpio o estudo da palavra de Deus ou abandonando-o depois, podem elevar-se facilmente \u00e0 uni\u00e3o \u00edntima com Deus. Assim, fixando-nos mais na subst\u00e2ncia do conte\u00fado que no brilho aparente da express\u00e3o estudemos os mist\u00e9rios divinos com esse desejo de conhecer que nasce do amor e o inflama.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o trabalho de m\u00e3os, o monge se exercita na humildade e reduz todo seu corpo a servid\u00e3o, para que sua alma adquira uma maior estabilidade. De onde, nos tempos estabelecidos, \u00e9 l\u00edcito dedicar-se a trabalhos manuais verdadeiramente \u00fateis; pois n\u00e3o conv\u00e9m perder em ocupa\u00e7\u00f5es sup\u00e9rfluas ou v\u00e3s o tempo precioso que \u00e9 concedido a cada um para glorificar a Deus. No entanto, n\u00e3o fica exclu\u00edda deste tempo \u00e0 utilidade da leitura e a ora\u00e7\u00e3o; mais ainda, sempre \u00e9 aconselh\u00e1vel, enquanto se trabalha, recorrer pelo menos \u00e0s breves ora\u00e7\u00f5es chamadas jaculat\u00f3rias. Tamb\u00e9m pode \u00e0s vezes suceder que o peso do trabalho sirva de \u00e2ncora que sujeite o vaiv\u00e9m dos pensamentos ajudando com isso ao cora\u00e7\u00e3o a permanecer fixo em Deus constantemente, sem fadiga mental.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho \u00e9 um servi\u00e7o mediante o qual nos unimos com Cristo, que n\u00e3o veio ser servido sen\u00e3o a servir. S\u00e3o de louvar certamente os que se as arrumam por si s\u00f3s para cuidar do mobili\u00e1rio, das ferramentas e das demais coisas usadas na cela, aliviando no poss\u00edvel o trabalho dos irm\u00e3os. Pelo demais todos t\u00eam de ter a cela ordenada e limpa.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre pode o Prior impor a um padre algum trabalho ou servi\u00e7o para bem da Comunidade, e ele o aceita com agrado e com alegria de cora\u00e7\u00e3o, pois no dia de sua Profiss\u00e3o pediu ser recebido como o mais humilde servidor de todos. Quando se encomenda um trabalho a um monge do claustro, seja sempre de tal natureza que lhe permita conservar sua liberdade interior enquanto trabalha, sem preocupar-se do ganho ou de quando tem de terminar. Porque conv\u00e9m que o solit\u00e1rio, atendendo n\u00e3o tanto \u00e0 obra como ao fim tentado, possa manter seu cora\u00e7\u00e3o sempre em vela Mas para que o monge permane\u00e7a calmo e s\u00e3o na solid\u00e3o muitas vezes ser\u00e1 conveniente que goze de certa liberdade na ordena\u00e7\u00e3o de seu trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Normalmente n\u00e3o se tem de chamar aos padres a trabalhar fora de suas celas, sobretudo nas obedi\u00eancias dos irm\u00e3os. E em caso que se destinem alguns padres a fazer um trabalho em comum, eles poder\u00e3o falar entre si do que requeira tal trabalho, mas n\u00e3o com os que chegam.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda nossa atividade nas\u00e7a sempre da fonte interior, a exemplo de Cristo, que sempre atua com o Pai, de maneira que o mesmo Pai fa\u00e7a as obras permanecendo nele. Assim seguiremos a Cristo em sua vida humilde e oculta de Nazar\u00e9, tanto quando oramos a Deus no secreto, como quando trabalhamos por obedi\u00eancia em sua presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"c6\">Cap\u00edtulo 6<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>A guarda da clausura<a href=\"#c5\">\u00ab<\/a><a href=\"#c7\">\u00bb<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Desde os princ\u00edpios de nossa Ordem se pensou que, mediante o estrito rigor da clausura, se expressaria e afirmaria nossa total consagra\u00e7\u00e3o a Deus. Que grande necessidade devesse mediar para sair fora, aparece suficientemente claro pelo fato de que o Prior de Cartuxa n\u00e3o sai nunca dos termos de seu ermo. Agora bem, como numa mesma Ordem suas observ\u00e2ncias devem guardar-se de um modo uniforme e similar por seus professos, n\u00f3s, que abra\u00e7amos o prop\u00f3sito cartusiano, de onde nos vem o nome de Cartuxos, n\u00e3o admitimos facilmente exce\u00e7\u00f5es; mas se alguma necessidade o exigisse, sempre se tem de pedir permiss\u00e3o ao Reverendo Padre, salvo em algum caso urgente e nos demais previstos pelos Estatutos.<\/p>\n\n\n\n<p>O rigor da clausura se converteria numa observ\u00e2ncia farisaica, se n\u00e3o fora um signo daquela pureza de cora\u00e7\u00e3o \u00e0 que unicamente se promete a vis\u00e3o de Deus. Para consegui-la, requer-se uma grande abnega\u00e7\u00e3o, sobretudo da natural curiosidade que o homem sente por tudo o humano. N\u00e3o devemos deixar que nosso esp\u00edrito se derrame pelo mundo, andando \u00e0 busca de not\u00edcias e rumores. Pelo contr\u00e1rio, nossa parte \u00e9 permanecer ocultos no segredo do rosto de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos de evitar os livros profanos ou revistas que possam turvar nosso sil\u00eancio interior. Particularmente seria contr\u00e1rio ao esp\u00edrito da Ordem introduzir de qualquer modo no claustro jornais que tratem de pol\u00edtica. Ainda mais, os Priores exortem a seus monges que sejam muito parcos nas leituras profanas. Mas esta advert\u00eancia requer uma maturidade de esp\u00edrito e um dom\u00ednio de si mesmo que saiba aceitar sinceramente todas as conseq\u00fc\u00eancias dessa melhor parte do que elegeu, a saber: sentar-se aos p\u00e9s do Senhor e escutar sua palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante, a familiaridade com Deus n\u00e3o estreita o cora\u00e7\u00e3o sen\u00e3o que o dilata e o capacita para abarcar nele os af\u00e3s e problemas do mundo, junto com os grandes interesses da Igreja de tudo o qual conv\u00e9m que o monge tenha algum conhecimento. No entanto, a verdadeira solicita\u00e7\u00e3o pelos homens deve nascer, n\u00e3o da curiosidade sen\u00e3o da \u00edntima comunh\u00e3o com Cristo. Cada qual, escutando interiormente ao Esp\u00edrito, veja que \u00e9 o que pode admitir em sua mente sem que sofra menoscabo seu di\u00e1logo com Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Se chegasse at\u00e9 n\u00f3s alguma not\u00edcia do que ocorre pelo mundo, guardemo-nos de comunic\u00e1-la aos demais; deixemos mais bem os rumores do s\u00e9culo ali onde os ouvimos. Toca ao Prior informar a seus monges sobre os temas que n\u00e3o conv\u00e9m ignorar, em especial sobre a vida da Igreja e suas necessidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem verdadeira necessidade, n\u00e3o procuremos ocasi\u00e3o de falar com as pessoas da Ordem e com os demais que \u00e0s vezes chegam a nossa Casa. Porque n\u00e3o aproveita ao amigo da solid\u00e3o, firme no sil\u00eancio e ansioso da quietude, fazer ou receber visitas sem motivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como est\u00e1 escrito:&nbsp;<em>Honra teu pai e tua m\u00e3e<\/em>, mitigamos um pouco o rigor da clausura para receber a nossos pais e a outros parentes pr\u00f3ximos, dois dias ao ano, seguidos ou separados. Pelo demais, a n\u00e3o ser que, por amor do Senhor, nos o imponha uma inevit\u00e1vel necessidade, evitamos a visita dos amigos e as palestras dos seculares. Sabemos que Deus \u00e9 digno de que se lhe ofere\u00e7a este sacrif\u00edcio, que ser\u00e1 para os homens mais proveitoso do que as nossas palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas Casas da Ordem canonicamente constitu\u00eddas se guarda estrita clausura segundo a tradi\u00e7\u00e3o da Ordem. N\u00e3o se pode admitir dentro da clausura a mulheres. Quando falamos com elas, observamos a mod\u00e9stia pr\u00f3pria de um monge.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordem os monges que a castidade pelo Reino dos C\u00e9us que professam, tem de estimar-se como dom ex\u00edmio da gra\u00e7a, pois libera de modo singular seu cora\u00e7\u00e3o para que mais facilmente possam unir-se a Deus com amor indiviso. Deste modo, evocam aquele maravilhoso con\u00fabio, fundado por Deus e que tem de revelar-se plenamente no s\u00e9culo futuro, pelo que a Igreja tem por Esposo \u00fanico a Cristo. Conv\u00e9m, portanto, que, esfor\u00e7ando-se por permanecer fieis \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o, creiam nas palavras do Senhor e, confiantes no aux\u00edlio de Deus, n\u00e3o presumam das pr\u00f3prias for\u00e7as, mas apliquem-se \u00e0 mortifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 guarda dos sentidos. Confiem tamb\u00e9m em Maria que, pela humildade e virgindade, mereceu ser M\u00e3e de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto proveito e alegria divina proporcionam a solid\u00e3o e o sil\u00eancio do deserto a quem os ama, s\u00f3 o sabe quem o experimentou.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui podem os homens esfor\u00e7ados recolher-se em seu interior quanto queiram, morar consigo, cultivar sem cessar os germes das virtudes e alimentar-se felizmente dos frutos do para\u00edso.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui se adquire aquele olho limpo, cuja serena mirada fere de amores ao Esposo e cuja limpeza e pureza permite ver a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui se vive um lazer ativo, repousa-se numa sossegada atividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui concede Deus a seus atletas, pelo esfor\u00e7o do combate, a ansiada recompensa: a paz que o mundo ignora e o gozo no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"c7\">Cap\u00edtulo 7<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>A abstin\u00eancia e o jejum<a href=\"#c6\">\u00ab<\/a><a href=\"#c8\">\u00bb<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Cristo sofreu por n\u00f3s, dando-nos exemplo para que sigamos suas impress\u00f5es. O que praticamos j\u00e1 aceitando as penalidades e ang\u00fastias desta vida, j\u00e1 abra\u00e7ando a pobreza com a liberdade de filhos de Deus e renunciando \u00e0 pr\u00f3pria vontade. Tamb\u00e9m, segundo a tradi\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica, corresponde-nos seguir a Cristo quando jejua no deserto, castigando nosso corpo e reduzindo-o a servid\u00e3o, para que nossa alma brilhe com o desejo de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Os monges do claustro fazem uma abstin\u00eancia semanal, geralmente a sexta-feira. Esse dia se contentam com p\u00e3o e \u00e1gua. Em certos tempos e dias fazem jejum de Ordem, no que t\u00eam uma s\u00f3 comida.<\/p>\n\n\n\n<p>A penit\u00eancia corporal n\u00e3o devemos abra\u00e7\u00e1-la s\u00f3 por obedecer aos Estatutos; est\u00e1 destinada principalmente a aliviar-nos do peso da carne para que possamos seguir com mais presteza ao Senhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se em algum caso, ou durante uma temporada, sentisse um que alguma de nossas observ\u00e2ncias supera suas for\u00e7as, e que mais bem o entorpece do que o impulsiona ao seguimento de Cristo, decida, em filial acordo com o Prior, a mitiga\u00e7\u00e3o que lhe conv\u00e9m, ao menos temporariamente. Mas, tendo sempre presente o telefonema de Cristo, indague o que est\u00e1 ainda dentro de suas possibilidades, e o que n\u00e3o pode dar ao Senhor pela observ\u00e2ncia comum, supra-o de outro modo, negando-se a si mesmo e levando sua cruz cada dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Conv\u00e9m que os novi\u00e7os se acostumem pouco a pouco \u00e0s abstin\u00eancias e jejuns da Ordem, a fim de que tendam ao rigor da observ\u00e2ncia com prud\u00eancia e seguran\u00e7a, sob a dire\u00e7\u00e3o do Maestro. Este os ensinar\u00e1 particularmente a vigiar-se para n\u00e3o faltar \u00e0 sobriedade \u00e0 hora da refei\u00e7\u00e3o, s\u00f4 pretexto dos jejuns que t\u00eam de observar. Assim aprender\u00e3o a reprimir com o esp\u00edrito as obras da carne, e a levar em seu corpo a mortifica\u00e7\u00e3o de Jesus, a fim de que tamb\u00e9m a vida de Jesus se manifeste em seus corpos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo uma observ\u00e2ncia introduzida por nossos primeiros Pais e guardada sempre com um zelo especial, renunciamos em nosso prop\u00f3sito ao uso da carne. Observe-se dita abstin\u00eancia como algo pr\u00f3prio da Ordem e signo do rigor erem\u00edtico no qual, com a ajuda de Deus, queremos perseverar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum de n\u00f3s se d\u00ea a exerc\u00edcios de penit\u00eancia fora dos indicados nestes Estatutos, a n\u00e3o ser com o conhecimento e aprova\u00e7\u00e3o do Prior. Mas se o Prior quisesse dar a algum de n\u00f3s uma mitiga\u00e7\u00e3o na comida, o sonho ou em alguma outra coisa, ou impor-lhe algo duro e grave, n\u00e3o podemos opor-nos, n\u00e3o seja que ao resisti-lo, resistamos n\u00e3o a ele, sen\u00e3o ao Senhor, cujas vezes faz para com n\u00f3s. Pois ainda que sejam muitas e diversas as coisas que observamos, n\u00e3o esperamos que nenhuma delas nos aproveite sem o bem da obedi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"c8\">Cap\u00edtulo 8<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>O novi\u00e7o<a href=\"#c7\">\u00ab<\/a><a href=\"#c9\">\u00bb<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Quem, ardendo em amor divino, desejam abandonar o mundo e captar as coisas eternas, quando chegam a n\u00f3s recebamo-los com o mesmo esp\u00edrito. \u00c9, pois, muito conveniente que os novi\u00e7os encontrem nas Casas onde t\u00eam de ser formados, um verdadeiro exemplo de observ\u00e2ncia regular e de piedade, de guarda da cela e do sil\u00eancio, e tamb\u00e9m de caridade fraterna. Se chegasse a faltar isto, mal se poder\u00e1 esperar que perseverem em nosso modo de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos que se apresentem como candidatos, se os tem de examinar atenciosa e prudentemente, segundo o aviso do Ap\u00f3stolo S\u00e3o Juan:&nbsp;<em>Examinai se os esp\u00edritos v\u00eam de Deus<\/em>. Porque \u00e9 realmente verdadeiro que da boa ou m\u00e1 admiss\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o dos novi\u00e7os depende principalmente a prosperidade ou a decad\u00eancia da Ordem, tanto na qualidade como no n\u00famero das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, os Priores devem informar-se com prud\u00eancia sobre sua fam\u00edlia, sua vida passada e suas qualidades de alma e corpo; pela mesma raz\u00e3o, convir\u00e1 conferir a m\u00e9dicos prudentes que conhe\u00e7am bem nosso g\u00eanero de vida. Efetivamente, entre as dotes pelas que os candidatos \u00e0 vida solit\u00e1ria devem ser estimados, tem de contar-se, sobretudo, um ju\u00edzo equilibrado e s\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o acostumamos receber novi\u00e7os antes que tenham come\u00e7ado os vinte anos; inclusive entre os que pe\u00e7a ser recebidos, recebam-se t\u00e3o s\u00f3 aqueles que, a ju\u00edzo do Prior e da maioria da Comunidade, tenham suficiente doutrina, piedade, maturidade e for\u00e7as corporais para levar os \u00f4nus da Ordem; e que sejam o bastante aptos, sem d\u00favida para a solid\u00e3o, mas tamb\u00e9m para a vida comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas conv\u00e9m que sejamos mais circunspetos na recep\u00e7\u00e3o das pessoas de idade madura, j\u00e1 que se adaptam mais dificilmente \u00e0s observ\u00e2ncias e nossa forma de vida; por isso n\u00e3o queremos que algu\u00e9m seja recebido depois dos quarenta e cinco anos, sem licen\u00e7a expressa do Cap\u00edtulo Geral ou do Reverendo Padre. Tal licen\u00e7a se requer tamb\u00e9m para admitir ao noviciado a um religioso paquerado o v\u00ednculo da Profiss\u00e3o em outro Instituto, e se se trata de um professo de votos perp\u00e9tuos, o Reverendo Padre precisa o consentimento do Conselho Geral. Para admitir a algu\u00e9m unido anteriormente com votos a um Instituto religioso, se nos aconselha ouvir antes ao Reverendo Padre.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se nos apresenta algum com desejos de ser monge do claustro, primeiro se lhe pergunta em particular que motivo e da\u00ed inten\u00e7\u00e3o o movem a isso. E se realmente se v\u00ea que s\u00f3 procura a Deus, se o examina sobre alguns pontos que ent\u00e3o \u00e9 preciso conhecer: se tem a devida forma\u00e7\u00e3o cultural para um monge que tem de ser promovido ao sacerd\u00f3cio, se pode cantar e se tem algum impedimento can\u00f4nico. No entanto, o postulante n\u00e3o poder\u00e1 iniciar o noviciado at\u00e9 que tenha os suficientes conhecimentos de l\u00edngua latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Cumprido isto, exp\u00f5e-se ao candidato o fim de nossa vida, a gl\u00f3ria que esperamos dar a Deus por nossa uni\u00e3o com sua obra redentora, e que bom e gozoso \u00e9 deix\u00e1-lo tudo para aderir-se a Cristo. Tamb\u00e9m se lhe prop\u00f5e o duro e \u00e1spero, fazendo-lhe ver, quanto seja poss\u00edvel, todo o modo de vida que deseja abra\u00e7ar. Se ante isto segue decidido, oferecendo-se com sumo gosto a seguir um caminho duro, fiado nas palavras do Senhor, e desejando morrer com Cristo para viver com Ele, por fim se lhe aconselha que, conforme ao Evangelho, se reconcilie com aqueles que tiverem alguma coisa contra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de uma prova\u00e7\u00e3o de tr\u00eas meses, ao menos, e n\u00e3o mais de um ano, o postulante, numa data determinada, apresenta-se \u00e0 Comunidade, que dar\u00e1 outro dia seu voto a respeito da admiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O novi\u00e7o, j\u00e1 que vai seguir a Cristo deixando todas suas coisas, entregue ao Prior integralmente o dinheiro e o demais que talvez trouxe consigo, a fim de que n\u00e3o seja ele mesmo sen\u00e3o o Prior, ou o que o Prior disponha, quem o guarde a modo de dep\u00f3sito. Por nossa parte, n\u00e3o exigimos nem pedimos absolutamente nada aos novi\u00e7os nem aos que querem entrar em nossa Ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>O noviciado se prolonga durante dois anos; tempo que o Prior poder\u00e1 prorrogar, mas n\u00e3o mais de seis meses.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se deixe aplanar o novi\u00e7o pelas tenta\u00e7\u00f5es que costumam espreitar aos seguidores de Cristo no deserto, nem confie em suas pr\u00f3prias for\u00e7as, sen\u00e3o mais bem espere no Senhor que deu a voca\u00e7\u00e3o e levar\u00e1 a termo a obra come\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"c9\">Cap\u00edtulo 9<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>O Maestro de novi\u00e7os<a href=\"#c8\">\u00ab<\/a><a href=\"#c10\">\u00bb<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A forma\u00e7\u00e3o dos novi\u00e7os se tem de encomendar a um Maestro que se distinga por sua prud\u00eancia, caridade e observ\u00e2ncia regular, que esteja dotado da devida maturidade e experi\u00eancia das coisas da Ordem que senta um gosto especial \u00e0 quietude e \u00e0 cela que irradie amor por nossa voca\u00e7\u00e3o, que entenda a diversidade de esp\u00edritos e tenha uma mentalidade aberta \u00e0s necessidades dos jovens. Ao ocupar-se com todo cora\u00e7\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o espiritual de seus alunos, saiba tamb\u00e9m escusar os defeitos alheios.<\/p>\n\n\n\n<p>O Maestro mostre-se sol\u00edcito e vigilante com respeito \u00e0 recep\u00e7\u00e3o dos novi\u00e7os, antepondo o m\u00e9rito ao n\u00famero. Para que um seja cartuxo n\u00e3o de puro nome, sen\u00e3o real e verdadeiramente, n\u00e3o basta querer; requer-se ademais, junto com o amor \u00e0 solid\u00e3o e a nossa vida, certa aptid\u00e3o especial de alma e corpo, por onde se conhe\u00e7a a voca\u00e7\u00e3o divina. Tudo isto o tenha em conta o Maestro, a quem principalmente pertence o examinar e provar aos calouros. N\u00e3o esque\u00e7a que certos defeitos, que num princ\u00edpio pareciam qui\u00e7\u00e1 de pouca monta, frequentemente costumam crescer e arraigasse mais depois da Profiss\u00e3o. \u00c9 assunto grave o recusar ou despedir a algu\u00e9m, e s\u00f3 se tem de decidir depois de madura delibera\u00e7\u00e3o. No entanto, receber a algum ou ret\u00ea-lo longo tempo, quando consta que lhe faltam as dotes necess\u00e1rias, \u00e9 uma falsa e quase cruel compaix\u00e3o. Esteja muito em guarda o Maestro para que o novi\u00e7o se decida em sua voca\u00e7\u00e3o com plena liberdade, e n\u00e3o o compila em modo algum para que fa\u00e7a a Profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O Maestro visitar\u00e1 ao novi\u00e7o em momentos oportunos e ensinar-lhe-\u00e1 as observ\u00e2ncias da Ordem que um novi\u00e7o n\u00e3o deve ignorar. Cuidar\u00e1, ademais, especialmente de que o novi\u00e7o estude com interesse os Estatutos da Ordem. Ao Maestro toca tamb\u00e9m formar os h\u00e1bitos do novi\u00e7o, dirigi-lo em seus exerc\u00edcios espirituais e p\u00f4r rem\u00e9dios oportunos a suas tenta\u00e7\u00f5es. Esteja atencioso a que, de dia em dia, aumente o amor dos alunos para Cristo e a Igreja. Ainda que, a exemplo de nosso Pai S\u00e3o Bruno, deve ter entranhas de m\u00e3e, \u00e9 preciso tamb\u00e9m que mostre uma energia de pai, para que a forma\u00e7\u00e3o do calouro seja mon\u00e1stica e varonil. Deixe, sobretudo, que os novi\u00e7os experimentem a vida solit\u00e1ria na cela e sua austeridade, e ensine-os a prestar-se mutuamente aux\u00edlio espiritual com caridade sincera e singela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito proveitoso, certamente, que o novi\u00e7o se dedique ao estudo e ao trabalho manual; mas n\u00e3o basta que o solit\u00e1rio esteja ocupado em sua cela e persevere laudavelmente assim at\u00e9 a morte; precisa, ademais, outra coisa: o esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o e prece. Faltando o viver com Cristo e a \u00edntima uni\u00e3o da alma com Deus, de pouco servir\u00e1 a fidelidade nas cerim\u00f4nias e a mesma observ\u00e2ncia regular, e nossa vida se poderia justamente comparar a um corpo sem alma. Portanto, nada tenha mais no cora\u00e7\u00e3o o Maestro do que inculcar este esp\u00edrito e acrescent\u00e1-lo com discri\u00e7\u00e3o, para que os novi\u00e7os depois de sua Profiss\u00e3o se acerquem cada dia mais a Deus e consigam o fim de sua voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuide muito o Maestro de ir sempre \u00e0s fontes de toda vida crist\u00e3, aos documentos da tradi\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica e \u00e0 primitiva inspira\u00e7\u00e3o de nossa Ordem. Exponha compridamente o esp\u00edrito de nosso Pai S\u00e3o Bruno e vele pelas s\u00e3s tradi\u00e7\u00f5es, recopiladas principalmente por Guigo e guardadas fielmente desde o nascimento da Ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do segundo ano, os novi\u00e7os come\u00e7ar\u00e3o seus estudos, que ser\u00e3o prudentemente orientados para uma forma\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo mon\u00e1stica e sacerdotal, segundo as normas da&nbsp;<em>Ratio Studiorum<\/em>. Os monges n\u00e3o sejam promovidos ao sacerd\u00f3cio at\u00e9 que estejam dotados de suficiente maturidade humana e espiritual, a fim de que possam participar mais plenamente deste dom de Deus.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\" id=\"c10\">Cap\u00edtulo 10<\/h3>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>A Profiss\u00e3o<a href=\"#c9\">\u00ab<\/a><a href=\"\/moines\/pt\/estatutos-pt\/livro-2\/\">\u00bb<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Morto ao pecado e consagrado a Deus pelo batismo, o monge pela Profiss\u00e3o se consagra mais plenamente ao Pai e se desembara\u00e7a do mundo, para poder tender mais retamente para a perfeita caridade. Unido ao Senhor mediante um compromisso firme e est\u00e1vel, participa do mist\u00e9rio da Igreja unida a Cristo com v\u00ednculo indissol\u00favel, e d\u00e1 depoimento ante o mundo da nova vida adquirida pela Reden\u00e7\u00e3o de Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se acerca o fim do segundo ano de noviciado, se o novi\u00e7o parece digno de ser admitido, se o apresentar\u00e1 \u00e0 Comunidade que, depois de alguns dias, bem pensado o assunto, dar\u00e1 seu parecer sobre a admiss\u00e3o do novi\u00e7o. Este, por sua vez, n\u00e3o fa\u00e7a os votos sen\u00e3o com plena liberdade e maturidade de ju\u00edzo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta primeira Profiss\u00e3o se emite por tr\u00eas anos. Passado este prazo, corresponde ao Prior, depois do voto da Comunidade, admitir ao jovem professo a passar dois anos com os professos de votos solenes. Em tal caso, o monge renovar\u00e1 por um bi\u00eanio a Profiss\u00e3o tempor\u00e1ria. Durante um destes dois anos \u2013 normalmente o segundo \u2013, o futuro professo estar\u00e1 livre de estudos can\u00f4nicos, a fim de se preparar com mais reflex\u00e3o para os votos solenes.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque o disc\u00edpulo que segue a Cristo deve renunciar a tudo e a si mesmo, o futuro professo, antes da Profiss\u00e3o solene, renuncie a todos os bens que tem em ato; pode tamb\u00e9m, se quer, dispor dos bens aos que tenha direito. Nenhuma pessoa da Ordem pe\u00e7a nada em absoluto de suas coisas ao professo tempor\u00e1ria, nem sequer com fins piedosos, nem para dar esmola a quem seja, sen\u00e3o que ele deve dispor livremente de seus bens segundo lhe ele decida.<\/p>\n\n\n\n<p>O que vai professar escreva por si mesmo a Profiss\u00e3o na forma e com as palavras:&nbsp;<em>Eu, frei N., prometo\u2026 estabilidade, obedi\u00eancia e convers\u00e3o de meus costumes, diante de Deus e dos seus Santos, e das rel\u00edquias deste ermo, que est\u00e1 constru\u00eddo em honra de Deus e da bem-aventurada sempre Virgem Maria e de S\u00e3o Juan Batista, na presen\u00e7a de Dom N., Prior<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da palavra \u00abprometo\u00bb, se se trata da primeira Profiss\u00e3o tempor\u00e1ria, adiciona-se \u00abpor tr\u00eas anos\u00bb, e quando esta Profiss\u00e3o se prorrogue, especifique-se o tempo da prorroga\u00e7\u00e3o; mas se se trata da Profiss\u00e3o solene, diga-se \u00abperp\u00e9tua\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 de saber que todos nossos ermos est\u00e3o dedicados em primeiro lugar \u00e0 Sant\u00edssima Virgem Maria e a S\u00e3o Juan Batista, nossos principais patronos no c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>A c\u00e9dula de toda Profiss\u00e3o deve ser assinada pelo professo e pelo Prior que recebeu os votos, e levar consignada a data; se a conserva no arquivo da Casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Feita a Profiss\u00e3o, o que foi recebido de tal maneira se considere alheio a tudo o do mundo, que n\u00e3o tenha potestade sobre coisa alguma, nem sequer sobre si mesmo, sem licen\u00e7a de seu Prior. Dado que todos os que determinaram viver regularmente t\u00eam de praticar com grande zelo a obedi\u00eancia, n\u00f3s o faremos com tanta maior entrega e fervor, quanto mais estrita e austera \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o que abra\u00e7amos; pois se, o que Deus n\u00e3o permita, esta obedi\u00eancia faltar, tantos trabalhos careceriam de pr\u00eamio De aqui que Samuel diga:&nbsp;<em>Melhor \u00e9 obedecer do que sacrificar, e melhor a docilidade do que a gordura dos carneiros<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A exemplo de Jesus Cristo, que veio cumprir a vontade de seu Pai e, tomando a forma de servo, aprendeu por seus padecimentos a obedi\u00eancia, o monge se submete pela Profiss\u00e3o ao Prior, que faz as vezes de Deus, e se esfor\u00e7a por chegar \u00e0 medida da plenitude de Cristo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Livro 1: Os monges do claustro Cap\u00edtulo 3 Os monges do claustro\u00ab\u00bb Os que foram Pais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"parent":6206,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-6208","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/6208","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6208"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/6208\/revisions"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/6206"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/chartreux.org\/moines\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}